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Apresentação
Mateus Araújo
João Dumans
Em quase cinquenta anos de trabalho, Jean-Marie Straub e Danièle Huillet construíram uma das obras mais importantes do cinema moderno, que ele prolonga em solo após a morte dela em 2006. Já na década de 1960, os primeiros filmes do casal impressionaram vivamente alguns dos melhores cineastas brasileiros, como Glauber Rocha, Júlio Bressane e Paulo César Saraceni, aos quais se seguiram, um pouco depois, Luiz Rosemberg, Arthur Omar, Ricardo Miranda e Carlos Reichenbach, entre outros.
De lá para cá, o impacto causado pela obra do casal entre nossos cineastas e nossos críticos não chegou porém a se traduzir em contribuições brasileiras de fôlego à bibliografia consagrada a ela, que foi se avolumando no mundo. Embora alguns de seus filmes tenham sido exibidos por aqui em cinematecas, cine-clubes e mostras, publicamos muito pouco sobre eles até 2000, ano do lançamento comercial no Brasil de Gente da Sicília (1998), o primeiro filme deles a estrear em nossas salas e a suscitar, assim, algumas resenhas na imprensa.1 Incluindo-as ou não, o balanço continuava magro: considerações lúcidas de Glauber nos artigos “O Novo cinema no mundo” (O Cruzeiro, 30/03/1968) e “Glauber Rocha escreve: assim se faz a revolução no cinema” (Manchete, n.939, abril 1970)1, evocações admirativas de Saraceni em seu livro de memórias Por dentro do cinema novo: minha viagem (1993)2, alguns parágrafos penetrantes de Arthur Omar na sua conferência “Cinema: música e pensamento” (1995)3, sugestões de comparação dos Straub com Ozu e Brecht no ensaio de Stella Senra “O Homem de Costas” (2000)4 e o belo artigo de Bressane “Jean-Marie Straub, a Crônica de Anna Magdalena Bach” (2003)5 constituíam até recentemente o principal do debate público brasileiro sobre a obra do casal – que também enfrentou resistências por aqui.6
Seja como for, embora não conheçamos pesquisas mais circunstanciadas sobre a recepção e a eventual influência do trabalho dos Straub junto aos cineastas, aos estudiosos e ao público cinéfilo do Brasil, podemos constatar que a admiração pelos seus filmes atravessou as décadas e parece ter re-emergido por aqui em anos recentes, quando seu lançamento em DVD, sua circulação na internet e sua presença mais constante em nossos festivais facilitaram seu acesso. Assim, ainda que com atraso e vagar, sua obra vem se tornando aos poucos mais conhecida e discutida no Brasil.
Em janeiro de 2012, uma retrospectiva praticamente integral coroou esforços variados (aí incluídos os de outros admiradores que tentavam noutras frentes implementar projetos semelhantes) e trouxe ao CCBB de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília 28 filmes do casal e 8 mais recentes de Straub. Embora tardia, ela ajudou a colocar em novo patamar o conhecimento e a discussão brasileiros do trabalho dos Straub. Junto com a exibição dos filmes, e com os debates que a secundaram, um catálogo exigente organizado a dez mãos7 reuniu 19 textos, 3 entrevistas e um diário de filmagem dos cineastas, além de 8 textos importantes de alguns dos seus melhores intérpretes franceses e italianos. Com um único texto de autor brasileiro no seu sumário8, o catálogo careceu porém de esforços de reflexão propriamente brasileiros sobre o trabalho dos cineastas.
Federar e impulsionar tais esforços (que avançam também em pesquisas universitárias e revistas eletrônicas) foi o que buscamos neste volume monográfico, o quinto na história da revista a se concentrar em obras de cineastas particulares. Em números anteriores, já havíamos nos debruçado sobre o trabalho de Jean-Luc Godard, Pedro Costa, Jean Rouch, Chantal Akerman e Andrea Tonacci. Agora é a vez dos Straub.
Trazendo ainda a primeira tradução em português de quatro textos de Straub de 1955 a 1972 (sobre Rossellini e Peter Nestler) e de um ensaio notável de Jean Narboni (um dos seus intérpretes mais finos na França) sobre Relações de Classe (1984) e Sicilia! (1998), este dossiê reúne sete ensaios brasileiros sobre diversos aspectos do trabalho do casal, escritos por estudiosos de diferentes gerações e procedências (USP, UFMG, UFRJ e UnB).
Tomando Antígona (1991) como exemplo privilegiado, Luiz Carlos de Oliveira Júnior examina o trabalho de mise-en-scène dos Straub, e atenta para o seu diálogo com Brecht e Cézanne. João Lanari volta ao mesmo filme numa outra angulação, confrontando as escolhas dos cineastas com a tragédia de Sófocles, a tradução de Hölderlin e a versão de Brecht. Theo Costa Duarte assinala e analisa estratégias de distanciamento presentes em O noivo, a atriz e o cafetão (1968), remetendo-as a Brecht sem reduzi-las à sua herança. Pedro Aspahan aborda as relações do cinema dos Straub com a música de Schoenberg, e aponta uma homologia entre a partitura da ópera Moisés e Aarão do compositor austríaco e a decupagem do filme homônimo do casal, que a relê em 1974. Anita Leandro parte das conversas do casal no documentário Onde Jaz o teu sorriso? (Pedro Costa, 2001) para propor um exame agudo das estratégias de montagem em seus filmes, articulando-as também com outros aspectos do seu trabalho (uso do som, atuação dos atores etc). Os editores do volume contribuem também com dois textos: o primeiro trata de um veio ensaístico no trabalho dos Straub, apontando-o e discutindo-o em cinco filmes do casal e em dois curtas mais recentes de Straub; o segundo discute o sentido do diálogo travado pelos Straub com os textos de Pavese, explorando o estatuto do mito e da natureza em Da nuvem à resistência (1978) e Aqueles encontros com eles (2005).
Neste mero anúncio dos seus temas, o leitor perceberá logo que estes ensaios não cobrem nem de longe o largo espectro dos filmes dos cineastas e das questões que eles suscitam. Possam eles ao menos sugerir algumas linhas de força de sua recepção recente no Brasil, e representar também os outros textos recebidos para este dossiê, cujas discussões nos interessaram e cujos autores merecem nosso sincero agradecimento. Face à limitação de espaço e à necessidade de escolher alguns em detrimento dos outros, os pareceristas e os editores julgamos que os textos aqui recolhidos traziam, entre todos os recebidos, as formulações mais felizes, embora necessariamente parciais, do debate brasileiro em curso sobre os Straub.
Completam ainda o volume, na seção Fora-de-Campo, dois textos sobre cineastas cujas poéticas, mobilizando o mito e a palavra oral, revelam uma íntima fraternidade com o cinema dos Straub. Emílio Maciel enfrenta, num ensaio denso, a riqueza de significações de dois filmes (Trás-os-montes, de 1976, e Ana, de 1982) de outro casal de cineastas radicais, os portugueses Antônio Reis e Margarida Cordeiro. O crítico francês Émile Breton discute, enfim, com muita propriedade, o pendor e o prazer de seu amigo Jean Rouch pela atividade de narrar, que está no coração de toda a sua obra.
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