quarta-feira, 20 de maio de 2026

As Pontes de Madison

 Existe uma tendência quase automática de reduzir As Pontes de Madison a uma história sobre adultério. Talvez porque seja mais confortável transformar o filme em um dilema moral simples do que encarar aquilo que realmente o atravessa. Mas a obra de Clint Eastwood fala de algo muito mais doloroso: vidas emocionalmente interrompidas, identidades sacrificadas e o silêncio afetivo que pode se instalar dentro de relações aparentemente estáveis.

A pergunta central do filme nunca foi “ela traiu ou não traiu?”. A verdadeira pergunta é outra: o que acontece com uma pessoa quando ela passa décadas sem ser profundamente vista?

Francesca Johnson não é apresentada como uma mulher obviamente infeliz. E talvez seja exatamente isso que torna tudo mais devastador. Ela tem marido, filhos, rotina organizada, uma casa funcional, uma vida considerada respeitável. Do lado de fora, nada parece faltar. Do ponto de vista familiar e social, ela ocupa perfeitamente o lugar esperado: esposa cuidadora, mãe dedicada, eixo emocional da casa.

Mas existe uma diferença brutal entre estabilidade e vitalidade psíquica.

Ao longo do filme, percebemos uma mulher que deixou de existir como sujeito desejante. Francesca não vive exatamente uma tragédia explícita; ela vive algo mais silencioso e mais comum: tornou-se função. Organiza a vida de todos, sustenta emocionalmente a família, preserva a ordem cotidiana, mas perdeu contato com partes fundamentais de si mesma — espontaneidade, erotismo, criatividade, identidade própria.

Ela não está apenas carente. Está dissociada de si.

E o filme é inteligente o suficiente para não transformar o marido em vilão. Richard Johnson parece um homem correto, trabalhador, previsível, decente. Não há crueldade evidente naquele casamento. Há apenas ausência. O que eles vivem é algo que muitos terapeutas de casal reconhecem imediatamente: uma parceria operacional. O casal funciona. Administra a vida. Mantém a estrutura. Mas já não existe encontro emocional profundo.

Falta curiosidade pelo mundo interno do outro. Falta escuta verdadeira. Falta presença. A rotina se transforma, lentamente, numa espécie de anestesia afetiva.

Talvez Francesca tenha passado anos sem que alguém perguntasse quem ela era além dos papéis que desempenhava.

É nesse vazio que Robert Kincaid surge — e sua importância psicológica vai muito além da figura do amante. Robert representa possibilidade. Liberdade. Presença emocional. Olhar. Ele vê Francesca de uma maneira que ninguém parecia vê-la havia décadas.

E ser visto pode ser uma experiência profundamente transformadora.

Na psicologia profunda, muitas vezes o apaixonamento não acontece apenas pelo outro, mas pela versão de si mesmo que reaparece na presença do outro. Ao lado de Robert, Francesca revive partes inteiras de sua subjetividade: sensualidade, inteligência, humor, desejo, espontaneidade. O romance dura poucos dias, mas produz uma transformação psíquica imensa, porque o filme sugere algo devastador: talvez ela jamais tivesse sido olhada daquela maneira em toda a vida.

Por isso a pergunta “por que ela não foi embora?” talvez seja simplista demais.

Francesca não decide apenas por si. Ela carrega filhos, estabilidade familiar, pertencimento social, culpa, valores de uma geração inteira. Carrega também aquilo que a terapia sistêmica chama de lealdades invisíveis: vínculos emocionais profundos que fazem alguém permanecer fiel a um sistema mesmo às custas do próprio desejo.

Mulheres da geração de Francesca aprenderam cedo que desejo pessoal podia ser confundido com egoísmo, que maternidade exigia autoabandono e que maturidade significava suportar silenciosamente. O sofrimento discreto era visto quase como virtude.

Então ela escolhe permanecer.

Mas o mais doloroso em As Pontes de Madison é perceber que permanecer também cobra um preço.

O filme não fala apenas sobre um amor impossível. Fala sobre o luto de uma vida não vivida. Sobre o abismo entre aquilo que alguém se tornou e aquilo que talvez pudesse ter sido. E talvez seja justamente isso que faz o filme continuar tão devastador décadas depois: ele toca num medo profundamente humano — o de perceber tarde demais que sobrevivemos à própria vida, mas deixamos partes essenciais de nós pelo caminho.

Almanya: Bem-vindo à Alemanha

 

Almanya – Bem-vindo à Alemanha é um filme sobre deslocamento, mas não no sentido

trágico e pesado que tantas narrativas de imigração costumam assumir. Yasemin Iamdereli

escolhe outro caminho: o da memória afetiva, do humor familiar, da ironia doce, quase

fabular. O filme acompanha três gerações de uma família turca na Alemanha, tendo como

eixo Hüseyin, trabalhador que chegou ao país nos anos 1960 como Gastarbeiter, “trabalhador

convidado”.

O que mais parece bonito em Almanya é que ele não pergunta apenas “de onde viemos?”,

mas “em que momento um lugar começa a nos pertencer?”. A Alemanha aparece, para a

primeira geração, como estranhamento: língua incompreensível, costumes absurdos, uma

espécie de planeta frio e ordenado. Para os filhos, já é conflito. Para os netos, é casa — mas

uma casa atravessada por uma herança que eles nem sempre compreendem.

A estrutura em lembranças dá ao filme um tom de álbum de família. Há algo de simplificado,

às vezes até excessivamente didático, mas isso faz parte da sua escolha: Almanya não quer

ser um drama sociológico duro; quer transformar a experiência migratória em narrativa

compartilhável. A comicidade suaviza a dor sem apagá-la. O riso nasce do choque cultural,

mas também da ternura: rir aqui é uma forma de sobreviver ao desenraizamento.

O personagem mais comovente é Hüseyin, porque nele a ideia de “retorno” é ambígua.

Quando ele compra uma casa na Turquia e deseja levar a família para lá, não está apenas

querendo voltar ao país natal. Ele tenta reconstruir uma unidade perdida. Mas a família já não

cabe inteiramente em lugar nenhum. A Turquia é origem, mito, infância narrada; a Alemanha

é cotidiano, trabalho, descendência, futuro. O filme entende que a identidade migrante não é

uma ponte entre dois pontos fixos, mas um território novo, feito de remendos.

A viagem à Turquia, portanto, funciona menos como deslocamento geográfico e mais como

acerto de contas com a memória. Cada personagem carrega uma versão diferente do

pertencimento. O menino Cenk, por exemplo, é talvez o símbolo mais delicado disso: ele não

sabe exatamente se é turco ou alemão, porque as categorias que os adultos usam já não dão

conta da vida real.

O filme é afetuoso, luminoso, generoso. Talvez sua fragilidade esteja justamente nessa

generosidade: ele evita zonas mais sombrias da imigração, como racismo estrutural, solidão

profunda, precarização do trabalho. Mas sua força está em outra chave. Almanya escolhe

contar a história da imigração pelo prisma da família, da mesa, da anedota, da lembrança

repetida até virar lenda.

No fundo, é um filme sobre a impossibilidade de voltar intacto. Quem migra muda; quem fica

também muda; o país de origem vira lembrança; o país de chegada vira ferida e abrigo ao

mesmo tempo. Almanya é bonito porque entende que pertencimento não é pureza. É mistura.

É sotaque. É contradição. É poder dizer, com alguma paz, que casa talvez seja menos um

lugar do que as pessoas com quem conseguimos contar nossa história.

A Better Life

 O filme A Better Life, dirigido por Chris Weitz (EUA), é um retrato sensível da experiência migratória a partir da relação entre pai e filho. A narrativa acompanha Carlos Galindo, um imigrante mexicano que trabalha como jardineiro em Los Angeles e organiza toda a sua vida em torno de um objetivo: oferecer ao filho uma vida mais segura do que a sua. Do ponto de vista clínico, o que mais se destaca é o estado constante de alerta em que esse pai vive. Sua subjetividade é atravessada pelo medo — medo da deportação, da violência, do fracasso, da perda do filho para a marginalidade. Trata-se de um sofrimento menos explosivo e mais crônico, marcado por tensão permanente e autocontenção.

Carlos é um homem silencioso, rígido, econômico nas palavras. Essa rigidez pode ser compreendida como uma estratégia defensiva: quando o mundo externo é imprevisível, o sujeito tenta manter controle interno. No entanto, essa postura dificulta a comunicação com o filho, que atravessa um conflito identitário próprio da segunda geração. Luis vive entre dois mundos: não pertence plenamente ao país de origem do pai, mas também não se sente totalmente integrado ao país onde nasceu e cresceu. Ele carrega a vergonha social da condição paterna e, ao mesmo tempo, a necessidade profunda de reconhecimento e vínculo.

O filme evidencia um fenômeno frequente na clínica intercultural: o desencontro de pertencimentos dentro da própria família. Enquanto o pai está ancorado na memória do país de origem e na ética do sacrifício, o filho está imerso nas pressões simbólicas da cultura norte-americana, que associa valor a status, consumo e visibilidade. Entre os dois, instala-se um silêncio carregado de afeto e frustração.

Há também um trauma social difuso, produzido pela condição de invisibilidade. A ameaça constante de deportação molda comportamentos, restringe sonhos e organiza escolhas. Ainda assim, o filme não reduz seus personagens à vitimização. Ele apresenta dignidade, ambivalência e humanidade. O amor de Carlos não é idealizado; é imperfeito, atravessado por falhas, mas profundamente estruturante.

Clinicamente, A Better Life revela que o sofrimento migratório muitas vezes não se apresenta como colapso, mas como exaustão emocional, hipervigilância e dificuldade de conexão. É um filme que permite pensar identidade, pertencimento e paternidade sob a perspectiva da integração psíquica em contextos de instabilidade. E mostra que, mesmo em condições adversas, o vínculo pode ser o principal eixo de sustentação subjetiva.


terça-feira, 19 de maio de 2026

Resenha — Le Cinquième Plan de La Jetée (Dominique Cabrera, 2024)

 Há filmes que contam histórias. Outros interrogam imagens. Le Cinquième Plan de La Jetée, de Dominique Cabrera, pertence radicalmente ao segundo grupo. O documentário nasce de um gesto aparentemente microscópico: revisitar o quinto plano de La Jetée, de Chris Marker. Mas aquilo que começa como curiosidade cinéfila logo se transforma numa investigação sobre memória, colonialismo, tempo e sobrevivência das imagens.

O filme de Marker sempre foi um monumento da memória cinematográfica. Feito quase inteiramente de fotografias fixas, La Jetée construiu uma ficção científica melancólica em que o passado aparece como ferida e obsessão. Cabrera, porém, desloca o eixo da obra: em vez da narrativa central, ela se interessa por aquilo que parecia periférico. Um rosto ao fundo. Um corpo anônimo. Pessoas capturadas casualmente na plataforma do aeroporto de Orly. O que existe dentro de uma imagem sem que o próprio filme saiba?

Essa pergunta move todo o documentário.

A grande força de Le Cinquième Plan de La Jetée está em compreender o cinema não como representação, mas como vestígio. Cabrera olha para aquele plano como uma arqueóloga afetiva. Cada figura congelada carrega uma espessura histórica inesperada: a França pós-guerra, a memória da Guerra da Argélia, deslocamentos populacionais, fantasmas coloniais. Aos poucos, o documentário revela que nenhuma imagem é inocente; toda imagem registra mais do que pretende.

Existe algo profundamente markeriano nisso. Cabrera herda de Chris Marker a ideia de que o cinema é uma máquina de memória imperfeita, feita de ausências, sobrevivências e associações livres. Mas ela acrescenta uma dimensão autobiográfica e política muito própria. Nascida na Argélia colonial, a diretora transforma o plano investigado num espaço de confronto íntimo com a história francesa e com sua própria memória. O documentário deixa então de ser apenas uma análise de La Jetée para se tornar uma reflexão sobre pertencimento, apagamento e herança histórica.

Formalmente, o filme evita qualquer didatismo. Não há vontade de “explicar” La Jetée ao espectador. Cabrera prefere habitar a imagem, voltar a ela obsessivamente, desmontá-la lentamente. O efeito é fascinante: um simples fragmento de poucos segundos ganha densidade quase infinita. O documentário demonstra como o cinema contém camadas subterrâneas que só o tempo permite revelar.

Há também algo comovente no modo como Cabrera trata os rostos anônimos do plano. Pessoas que talvez nunca tenham imaginado permanecer inscritas na história do cinema tornam-se aqui fantasmas documentais. O filme pergunta, silenciosamente, o que significa ser capturado por uma imagem e permanecer nela para sempre. Nesse sentido, Le Cinquième Plan de La Jetée dialoga não apenas com Marker, mas com toda uma tradição do cinema ensaístico que entende o ato de filmar como preservação precária do mundo.

Mais do que um comentário sobre um clássico, o documentário funciona como continuação espiritual de La Jetée. Se o filme de Marker falava da impossibilidade de escapar do passado, Cabrera mostra que o próprio passado continua olhando de volta para nós através das imagens. É um filme sobre aquilo que o cinema registra sem perceber — e sobre tudo o que ainda pode emergir quando decidimos olhar outra vez.