Há filmes que contam histórias. Outros interrogam imagens. Le Cinquième Plan de La Jetée, de Dominique Cabrera, pertence radicalmente ao segundo grupo. O documentário nasce de um gesto aparentemente microscópico: revisitar o quinto plano de La Jetée, de Chris Marker. Mas aquilo que começa como curiosidade cinéfila logo se transforma numa investigação sobre memória, colonialismo, tempo e sobrevivência das imagens.
O filme de Marker sempre foi um monumento da memória cinematográfica. Feito quase inteiramente de fotografias fixas, La Jetée construiu uma ficção científica melancólica em que o passado aparece como ferida e obsessão. Cabrera, porém, desloca o eixo da obra: em vez da narrativa central, ela se interessa por aquilo que parecia periférico. Um rosto ao fundo. Um corpo anônimo. Pessoas capturadas casualmente na plataforma do aeroporto de Orly. O que existe dentro de uma imagem sem que o próprio filme saiba?
Essa pergunta move todo o documentário.
A grande força de Le Cinquième Plan de La Jetée está em compreender o cinema não como representação, mas como vestígio. Cabrera olha para aquele plano como uma arqueóloga afetiva. Cada figura congelada carrega uma espessura histórica inesperada: a França pós-guerra, a memória da Guerra da Argélia, deslocamentos populacionais, fantasmas coloniais. Aos poucos, o documentário revela que nenhuma imagem é inocente; toda imagem registra mais do que pretende.
Existe algo profundamente markeriano nisso. Cabrera herda de Chris Marker a ideia de que o cinema é uma máquina de memória imperfeita, feita de ausências, sobrevivências e associações livres. Mas ela acrescenta uma dimensão autobiográfica e política muito própria. Nascida na Argélia colonial, a diretora transforma o plano investigado num espaço de confronto íntimo com a história francesa e com sua própria memória. O documentário deixa então de ser apenas uma análise de La Jetée para se tornar uma reflexão sobre pertencimento, apagamento e herança histórica.
Formalmente, o filme evita qualquer didatismo. Não há vontade de “explicar” La Jetée ao espectador. Cabrera prefere habitar a imagem, voltar a ela obsessivamente, desmontá-la lentamente. O efeito é fascinante: um simples fragmento de poucos segundos ganha densidade quase infinita. O documentário demonstra como o cinema contém camadas subterrâneas que só o tempo permite revelar.
Há também algo comovente no modo como Cabrera trata os rostos anônimos do plano. Pessoas que talvez nunca tenham imaginado permanecer inscritas na história do cinema tornam-se aqui fantasmas documentais. O filme pergunta, silenciosamente, o que significa ser capturado por uma imagem e permanecer nela para sempre. Nesse sentido, Le Cinquième Plan de La Jetée dialoga não apenas com Marker, mas com toda uma tradição do cinema ensaístico que entende o ato de filmar como preservação precária do mundo.
Mais do que um comentário sobre um clássico, o documentário funciona como continuação espiritual de La Jetée. Se o filme de Marker falava da impossibilidade de escapar do passado, Cabrera mostra que o próprio passado continua olhando de volta para nós através das imagens. É um filme sobre aquilo que o cinema registra sem perceber — e sobre tudo o que ainda pode emergir quando decidimos olhar outra vez.

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