quinta-feira, 21 de maio de 2026

Dias Perfeitos , de Wim Wenders

 Dias Perfeitos (Wim Wenders, Japão/Alemanha) é um filme sobre aquilo que quase ninguém mais consegue enxergar: a dignidade silenciosa da vida comum. Em um mundo acelerado, barulhento e obsessivamente produtivo, Wenders constrói uma obra radicalmente delicada. Radical porque desacelera. Porque observa. Porque escolhe permanecer diante dos pequenos gestos em vez de correr para o espetáculo.

Hirayama, interpretado de forma impressionante por Kōji Yakusho, trabalha limpando banheiros públicos em Tóquio. Sua rotina é simples: acordar cedo, cuidar das plantas, ouvir fitas cassete no carro, ler antes de dormir, fotografar sombras e árvores. Em qualquer outro filme, isso poderia ser tratado como monotonia ou fracasso social. Mas Wenders faz o contrário: transforma a repetição em ritual, e o cotidiano em experiência espiritual.

O que mais emociona em Dias Perfeitos é a ausência de cinismo. O filme não ironiza Hirayama. Não o trata como um excêntrico. Não tenta “explicar” psicologicamente cada silêncio. Há um profundo respeito pelo modo como ele escolheu existir. E talvez esteja justamente aí a beleza mais rara do filme: ele nos apresenta um personagem que não está tentando performar felicidade. Ele apenas aprendeu a habitar o próprio tempo.

Existe algo muito terapêutico nessa narrativa. Hirayama parece alguém que construiu uma vida possível depois de alguma ruptura interna que nunca é completamente verbalizada. O passado aparece em pequenos fragmentos, encontros desconfortáveis e silêncios familiares. Wenders não transforma isso em melodrama porque entende algo essencial: certos sofrimentos não desaparecem; eles apenas encontram outra forma de coexistir conosco.

Por isso, o filme fala tanto sobre presença. Hirayama vive atento às pequenas experiências sensoriais do mundo. A luz atravessando as folhas. O reflexo nas paredes. O som das fitas de Lou Reed, Patti Smith ou Nina Simone. Em tempos de excesso de estímulo, ele parece escolher cuidadosamente aquilo que deixa entrar dentro de si.

E talvez seja isso que torna Dias Perfeitos tão profundamente comovente: ele sugere que felicidade não é euforia. Não é conquista permanente. Não é uma vida sem dor. Felicidade pode ser apenas a possibilidade de criar algum sentido íntimo no meio da repetição inevitável da existência.

Wenders filma Tóquio como quem procura humanidade escondida entre concreto, reflexos e silêncio. E há algo de profundamente humanista nisso. O diretor não procura grandes eventos; ele procura pequenos instantes de verdade. Como Yasujirō Ozu fazia, o filme entende que a vida acontece nos intervalos.

O plano final é devastador justamente porque concentra tudo o que o filme construiu até ali. O rosto de Hirayama carrega alegria, tristeza, memória, cansaço, paz e solidão ao mesmo tempo. Não existe conclusão definitiva. Só humanidade. E talvez poucas obras recentes tenham conseguido traduzir com tanta delicadeza aquilo que sentimos quando percebemos que viver é suportar ambiguidades sem deixar de encontrar beleza no mundo.

Dias Perfeitos não é um filme sobre rotina. É um filme sobre presença. Sobre aprender a existir sem anestesiar a própria sensibilidade. E talvez seja por isso que ele permaneça tanto tempo dentro da gente depois que termina.

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