Este ensaio parte de um encantamento pessoal com o cinema iraniano, um cinema profundamente sensível, inventivo e politicamente comprometido. Através de sua estética própria, esse cinema tornou-se um espaço de resistência simbólica e criação poética.
O recorte que proponho gira em torno da
chamada “Trilogia Poética” de Mohsen Makhmalbaf, com foco especial em Gabbeh
(1996). Mais do que uma análise técnica ou narrativa, este trabalho busca
refletir sobre a potência dos corpos não treinados na tela, sobre o uso do real
como matéria estética, e sobre como a simplicidade do gesto cotidiano pode
alcançar uma complexidade simbólica singular.
O Porquê da
Nossa Escolha
Gabbeh foi um
choque estético. Logo na primeira vez em que vimos o filme, nos sentimos
atravessados pela explosão de cores — algo que se opõe frontalmente ao cinza
opressivo que costuma marcar o vestuário feminino no Irã. Esse estranhamento
visual me levou a investigar a história por trás das escolhas estilísticas e
narrativas do filme.
Mais do que isso, Gabbeh nos apresentou
a força do não-dito, da imagem como discurso e da poesia como forma de
insurgência. E, claro, despertou nossa curiosidade sobre como se dirige um
filme com não atores — como se fabrica o real no cinema quando o real já está
ali, bruto, vivo, sem moldura.
Corpos Não
Treinados – Como?
Essa questão percorre todo o ensaio: como
pensar o corpo em cena quando esse corpo não pertence ao campo profissional da
atuação? O que acontece com o cinema quando os gestos vêm de pessoas que não
"interpretam", mas vivem? E como isso se relaciona com a linguagem
específica do cinema iraniano, que faz da ausência de artifício um recurso
expressivo?
Parte 1 –
Cinema Iraniano: Brevíssima História
O cinema iraniano emergiu como uma poderosa
expressão cultural, especialmente a partir dos anos 1970, com filmes que
refletiam as tensões sociais e políticas do país. Um exemplo marcante é A
Vaca (1969), de Dariush Mehrjui, obra que inaugurou um olhar mais cru e
poético sobre a vida rural e os dilemas existenciais do povo iraniano.
Com o advento da Revolução Islâmica, em 1979,
o cinema passou a ser rigidamente regulamentado. Em 1983, o governo criou
órgãos para fiscalizar a produção cinematográfica, estabelecendo regras
severas: proibição de contato físico entre personagens, censura a críticas ao
exército, à polícia ou à instituição familiar, e até restrições visuais — como
a proibição de personagens negativos usarem barba, que poderia ser associada à
imagem do profeta. A penalização por transgressão dessas regras varia entre
prisão, exílio e até pena de morte, como no caso do cineasta Jafar Panahi.
Apesar da censura, ou justamente por causa
dela, desenvolveu-se uma linguagem estética singular. Características como a
predileção por locações reais, sons ambientes, não atores, além de referências
à poesia persa, passagens do Alcorão, e uma atenção especial ao universo
infantil e aos núcleos familiares rurais, tornaram-se marcas do cinema
iraniano. Objetos cotidianos ganham força simbólica — a maçã como metáfora para
a liberdade das mulheres, ou os sapatos em Filhos do Paraíso (Majid
Majidi) como símbolo de responsabilidade e afeto.
Um fato ilustrativo da busca por autenticidade
vem do cineasta Abbas Kiarostami, que contou ter abandonado o uso de roteiros
após uma atriz decorar todas as falas, inclusive as rubricas. Desde então,
preferiu trabalhar sem roteiros, com improvisação total — muitas vezes nem
mesmo a equipe conhecia a história. Isso define uma ética do imprevisto que
impregna o cinema iraniano com uma verdade crua e poética.
Parte 2 – A
Trilogia Poética e Gabbeh
A chamada “trilogia poética da cor” de Mohsen
Makhmalbaf — formada pelos filmes Gabbeh (1996), The Silence (Sokout,
1998) e The Gardener (Baghban, 2012) — articula imagem, som e
filosofia em torno de uma mesma busca: retratar o invisível da experiência
humana através da natureza e da arte.
Segundo o próprio diretor, Gabbeh é o
mais naturalista dos três, inspirado pelos fauvistas e impressionistas. Foi
filmado com o uso exclusivo de luz natural, o que exigiu horas de espera por
uma luminosidade específica para atingir as cores desejadas na paisagem. The
Silence, por outro lado, é um filme sobre o som e sobre a escuta —
especialmente simbólico, pois Makhmalbaf foi privado de música em sua infância.
Já The Gardener se estrutura como uma reflexão filosófica sobre a
religião e a convivência entre diferentes crenças, tendo sido filmado em Haifa,
Israel.
Em Gabbeh, a trama acompanha uma jovem
nômade que narra sua história de amor interrompido e opressões familiares
através de imagens profundamente simbólicas. O filme se estrutura como um
bordado narrativo: passado e presente se entrelaçam sem linearidade, como o próprio
tapete que dá nome à protagonista.
Aspectos
Relevantes de Gabbeh
- Shaghayeh Djodat,
atriz principal, chegou ao teste de elenco vestida com trajes urbanos e
véu, implorando por um papel — gesto que já carrega em si um ato de
resistência e desejo de liberdade.
- O uso das cores é um
ato político: em contraste com o preto imposto às mulheres no Irã, Gabbeh
exibe vestimentas vibrantes, exaltando a vida e o desejo.
- Uma curiosidade: a mulher grávida próxima ao parto, mostrada em uma
cena, é interpretada pelo próprio Makhmalbaf travestido — um artifício
necessário para driblar a censura que impede mulheres de se exporem dessa
forma na tela.
Parte 3 –
Atores e Não Atores
Como abordar o corpo e o pensamento a partir
de um filme que não utiliza atores profissionais?
No cinema iraniano — e especialmente em Gabbeh
— o “não ator” é alguém que vive o papel, em vez de representá-lo. A direção
requer o mínimo de atuação. Os personagens são muitas vezes construídos a
partir da própria vivência dessas pessoas, criando um jogo de “faz de conta”
que se aproxima mais da performance espontânea do que da técnica teatral.
Essa escolha está ligada não só a um ideal
estético, mas também a um desejo ético: trazer para a tela rostos reais,
histórias reais, sem o verniz da atuação tradicional. A ausência de técnica
formal é compensada por uma presença bruta, carregada de verdade. A câmera
observa mais do que dirige; capta mais do que constrói.
Utilizando métodos comparativos com outras
cinematografias e obras do próprio Makhmalbaf, percebemos que essa forma de
fazer cinema aproxima-se de uma antropologia sensível. O ator-performer não
interpreta, mas se desloca, se coloca em risco. É uma troca viva entre corpo,
espaço e olhar.
Conclusão
O cinema iraniano — e Gabbeh em
particular — é um território onde o gesto mínimo carrega o peso do mundo. A
ausência de técnica, a improvisação, a realidade como cenário e personagem,
tudo isso revela uma outra forma de ver e de dizer.
Assistir a Gabbeh é como mergulhar em
um poema visual. É perceber que o cinema não precisa ser uma indústria da
representação, mas pode ser um campo de revelações silenciosas, um tapete
tecido de memórias, cores, silêncios e desejos.
E talvez seja justamente aí, na não atuação,
no corpo não treinado, que o cinema alcance sua expressão mais verdadeira.
REFERÊNCIAS
CHESHIRE, Godfrey. The Poetic Trilogy of Mohsen
Makhmalbaf. Tehran: Blue Cinema Press, 2015.
KIAROSTAMI, Abbas. O cinema e a verdade. São Paulo: Persa Editora, 2007.
KHATIB, Lina. Filming the Modern Middle East: Politics in the Cinemas of
Hollywood and the Arab World. London: I.B. Tauris, 2006.
NAFICY, Hamid. A Social History of Iranian Cinema. Durham: Duke University
Press, 2011.
RAFI, Zahra. Voices of Silence: Women in Iranian Cinema. New
York: Nomad Books, 2014.
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