quinta-feira, 21 de maio de 2026

Entre Realidade e Poesia: Um Ensaio sobre o Cinema Iraniano e o Filme Gabbeh

 Este ensaio parte de um encantamento pessoal com o cinema iraniano, um cinema profundamente sensível, inventivo e politicamente comprometido. Através de sua estética própria, esse cinema tornou-se um espaço de resistência simbólica e criação poética.

O recorte que proponho gira em torno da chamada “Trilogia Poética” de Mohsen Makhmalbaf, com foco especial em Gabbeh (1996). Mais do que uma análise técnica ou narrativa, este trabalho busca refletir sobre a potência dos corpos não treinados na tela, sobre o uso do real como matéria estética, e sobre como a simplicidade do gesto cotidiano pode alcançar uma complexidade simbólica singular.

O Porquê da Nossa Escolha

Gabbeh foi um choque estético. Logo na primeira vez em que vimos o filme, nos sentimos atravessados pela explosão de cores — algo que se opõe frontalmente ao cinza opressivo que costuma marcar o vestuário feminino no Irã. Esse estranhamento visual me levou a investigar a história por trás das escolhas estilísticas e narrativas do filme.

Mais do que isso, Gabbeh nos apresentou a força do não-dito, da imagem como discurso e da poesia como forma de insurgência. E, claro, despertou nossa curiosidade sobre como se dirige um filme com não atores — como se fabrica o real no cinema quando o real já está ali, bruto, vivo, sem moldura.

Corpos Não Treinados – Como?

Essa questão percorre todo o ensaio: como pensar o corpo em cena quando esse corpo não pertence ao campo profissional da atuação? O que acontece com o cinema quando os gestos vêm de pessoas que não "interpretam", mas vivem? E como isso se relaciona com a linguagem específica do cinema iraniano, que faz da ausência de artifício um recurso expressivo?


Parte 1 – Cinema Iraniano: Brevíssima História

O cinema iraniano emergiu como uma poderosa expressão cultural, especialmente a partir dos anos 1970, com filmes que refletiam as tensões sociais e políticas do país. Um exemplo marcante é A Vaca (1969), de Dariush Mehrjui, obra que inaugurou um olhar mais cru e poético sobre a vida rural e os dilemas existenciais do povo iraniano.

Com o advento da Revolução Islâmica, em 1979, o cinema passou a ser rigidamente regulamentado. Em 1983, o governo criou órgãos para fiscalizar a produção cinematográfica, estabelecendo regras severas: proibição de contato físico entre personagens, censura a críticas ao exército, à polícia ou à instituição familiar, e até restrições visuais — como a proibição de personagens negativos usarem barba, que poderia ser associada à imagem do profeta. A penalização por transgressão dessas regras varia entre prisão, exílio e até pena de morte, como no caso do cineasta Jafar Panahi.

Apesar da censura, ou justamente por causa dela, desenvolveu-se uma linguagem estética singular. Características como a predileção por locações reais, sons ambientes, não atores, além de referências à poesia persa, passagens do Alcorão, e uma atenção especial ao universo infantil e aos núcleos familiares rurais, tornaram-se marcas do cinema iraniano. Objetos cotidianos ganham força simbólica — a maçã como metáfora para a liberdade das mulheres, ou os sapatos em Filhos do Paraíso (Majid Majidi) como símbolo de responsabilidade e afeto.

Um fato ilustrativo da busca por autenticidade vem do cineasta Abbas Kiarostami, que contou ter abandonado o uso de roteiros após uma atriz decorar todas as falas, inclusive as rubricas. Desde então, preferiu trabalhar sem roteiros, com improvisação total — muitas vezes nem mesmo a equipe conhecia a história. Isso define uma ética do imprevisto que impregna o cinema iraniano com uma verdade crua e poética.


Parte 2 – A Trilogia Poética e Gabbeh

A chamada “trilogia poética da cor” de Mohsen Makhmalbaf — formada pelos filmes Gabbeh (1996), The Silence (Sokout, 1998) e The Gardener (Baghban, 2012) — articula imagem, som e filosofia em torno de uma mesma busca: retratar o invisível da experiência humana através da natureza e da arte.

Segundo o próprio diretor, Gabbeh é o mais naturalista dos três, inspirado pelos fauvistas e impressionistas. Foi filmado com o uso exclusivo de luz natural, o que exigiu horas de espera por uma luminosidade específica para atingir as cores desejadas na paisagem. The Silence, por outro lado, é um filme sobre o som e sobre a escuta — especialmente simbólico, pois Makhmalbaf foi privado de música em sua infância. Já The Gardener se estrutura como uma reflexão filosófica sobre a religião e a convivência entre diferentes crenças, tendo sido filmado em Haifa, Israel.

Em Gabbeh, a trama acompanha uma jovem nômade que narra sua história de amor interrompido e opressões familiares através de imagens profundamente simbólicas. O filme se estrutura como um bordado narrativo: passado e presente se entrelaçam sem linearidade, como o próprio tapete que dá nome à protagonista.

Aspectos Relevantes de Gabbeh

  • Shaghayeh Djodat, atriz principal, chegou ao teste de elenco vestida com trajes urbanos e véu, implorando por um papel — gesto que já carrega em si um ato de resistência e desejo de liberdade.
  • O uso das cores é um ato político: em contraste com o preto imposto às mulheres no Irã, Gabbeh exibe vestimentas vibrantes, exaltando a vida e o desejo.
  • Uma curiosidade: a mulher grávida próxima ao parto, mostrada em uma cena, é interpretada pelo próprio Makhmalbaf travestido — um artifício necessário para driblar a censura que impede mulheres de se exporem dessa forma na tela.

Parte 3 – Atores e Não Atores

Como abordar o corpo e o pensamento a partir de um filme que não utiliza atores profissionais?

No cinema iraniano — e especialmente em Gabbeh — o “não ator” é alguém que vive o papel, em vez de representá-lo. A direção requer o mínimo de atuação. Os personagens são muitas vezes construídos a partir da própria vivência dessas pessoas, criando um jogo de “faz de conta” que se aproxima mais da performance espontânea do que da técnica teatral.

Essa escolha está ligada não só a um ideal estético, mas também a um desejo ético: trazer para a tela rostos reais, histórias reais, sem o verniz da atuação tradicional. A ausência de técnica formal é compensada por uma presença bruta, carregada de verdade. A câmera observa mais do que dirige; capta mais do que constrói.

Utilizando métodos comparativos com outras cinematografias e obras do próprio Makhmalbaf, percebemos que essa forma de fazer cinema aproxima-se de uma antropologia sensível. O ator-performer não interpreta, mas se desloca, se coloca em risco. É uma troca viva entre corpo, espaço e olhar.


Conclusão

O cinema iraniano — e Gabbeh em particular — é um território onde o gesto mínimo carrega o peso do mundo. A ausência de técnica, a improvisação, a realidade como cenário e personagem, tudo isso revela uma outra forma de ver e de dizer.

Assistir a Gabbeh é como mergulhar em um poema visual. É perceber que o cinema não precisa ser uma indústria da representação, mas pode ser um campo de revelações silenciosas, um tapete tecido de memórias, cores, silêncios e desejos.

E talvez seja justamente aí, na não atuação, no corpo não treinado, que o cinema alcance sua expressão mais verdadeira.

REFERÊNCIAS

CHESHIRE, Godfrey. The Poetic Trilogy of Mohsen Makhmalbaf. Tehran: Blue Cinema Press, 2015.
KIAROSTAMI, Abbas. O cinema e a verdade.
São Paulo: Persa Editora, 2007.
KHATIB, Lina. Filming the Modern Middle East: Politics in the Cinemas of Hollywood and the Arab World. London: I.B. Tauris, 2006.
NAFICY, Hamid. A Social History of Iranian Cinema. Durham: Duke University Press, 2011.
RAFI, Zahra. Voices of Silence: Women in Iranian Cinema.
New York: Nomad Books, 2014.

 

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